Três mulheres ao melhor estilo literário de Simone

A capa da revista Nouvel Observateur do mês de janeiro, que estampou uma

foto de Simone de Beauvoir, nua, de costas, tirada em 1952, recebeu críticas

de feministas que saíram em passeata exigindo um pedido de desculpas do

diretor de redação da revista.

 

 

O dia 9 de janeiro de 2008 foi lembrado pelos cem anos do nascimento da filósofa francesa Simone Lucie Ernestine Marie Bertrand de Beauvoir ou, simplesmente, Simone de Beauvoir, que se tornou ícone do movimento feminista após publicar, em 1949, o ensaio “O Segundo Sexo”.

 

Beauvoir estudou em colégio de freiras e cursou a Faculdade de Letras da Sorbonne, onde foi aluna de Jean Paul Sartre, com quem teve um relacionamento bastante incomum, repleto de amores paralelos de ambas as partes. Aos 21 anos já era professora universitária.

 

De família de classe alta e conservadora, ela se contrapôs às condições que lhe foram impostas. Elegante e bissexual, ela criticou o casamento, a burguesia, analisou a condição feminina e escolheu a emancipação das mulheres como causa pessoal. Conheceu Che Guevara e Mao Tsé-tung, e visitou o Brasil em 1960. Também fez parte da lista de escritores proibidos pela Igreja Católica.

 

Além dos ensaios filosóficos, Beauvoir produziu literatura da melhor qualidade e, em 1954 recebeu o Prêmio Goncourt, espécie de Nobel da literatura francesa, pela obra “Os Mandarins”. Na mesma época, foi o autor francês mais lido no ocidente.

 

A obra “A Mulher Desiludida” lançada em 1967 é considerada a sua melhor obra literária. O livro reúne três narrativas e três personagens complexas e profundas, que apesar de viverem diferentes situações assemelham-se diante da frustração do que planejaram para as suas vidas e do medo da solidão.

 
A Idade da Discrição

 

A primeira mulher, uma intelectual de esquerda aposentada, já tendo alcançado os sessenta. Até então, ela encarava com otimismo a falta de trabalho e o passar de tantos anos. Ainda era capaz de sentir a mocidade. Tudo muda quando o seu filho Filipe, para quem ela projetou um futuro dedicado aos estudos, decide deixar a Universidade e aceitar um cargo no governo, ao qual ela se opunha. O seu marido, André, também intelectual e militante aceita o fato e respeita a posição do filho.

 

Para arrasá-la ainda mais, ela recebe severas críticas sobre o seu último livro. Julgaram-no repetitivo e em nada inovador. A partir daí, a velhice a abate. Nada mais era como antes. O sentimento de perder o filho para a nora burguesa, a complacência do marido antes tão aguerrido, a incapacidade de criar. Se antes o seu otimismo contrastava com o pessimismo do marido (que se sentia inútil e desesperançado), agora ela sentia o mesmo, mas nem por isso estavam mais próximos. Ela não o perdoava por não condenar Filipe.

 

O reencontro entre eles acontece durante uma viagem em visita à sogra. André viaja primeiro. Ela fica só em Paris durante quinze dias ruminando os sentimentos e os últimos acontecimentos e, quando o encontra, ele parece revigorado. O convívio com a mãe, Manette, uma senhora de oitenta anos alegre e combativa, e o reencontro com os velhos amigos, desgastados e envelhecidos com a dura vida no campo, fizeram-no aceitar a sua atual condição e perceber que a velhice não é sinônima de tristeza. Agora ele queria tirar proveito do tempo que restava. Ela percebe que ele continua o mesmo homem que sempre amou, embora ele já não fosse mais o mesmo. Nem ela. Restava-lhe aprender a viver cada dia sem fazer planos? Ainda seria capaz de escrever? E de perdoar o filho?

 

Monólogo

 

A segunda mulher é Murielle. Ela está só em seu apartamento, enquanto os vizinhos comemoram a chegada do ano novo.  Tudo a aborrece: a música, as risadas, a felicidade dos outros. Durante horas, ela permanece imóvel, mas com a cabeça fervilhando em pensamentos carregados de ódio.

 

Ela detesta a própria mãe, o irmão, e os seus dois ex-maridos, Albert e Tristan. A filha do primeiro casamento, Sylvie, suicidou-se aos dezessete anos. Ela tenta se convencer de que não teve culpa, repetindo para si mesma que era uma boa mãe, mas algumas vezes se refere à filha com frieza e até demonstra ter ciúme de Sylvie com o seu segundo marido.

 

No início, o leitor tem pena e acredite que Murielle é vítima, mas no decorrer do seu monólogo angustiado fica evidente o seu desequilíbrio. Parece mesmo que ela ultrapassou o limiar entre a sanidade e a loucura. As causas seriam a morte da filha e os cinco anos de solidão que se sucederam? Ou o seu desequilíbrio seria a causa da morte da filha e do afastamento de todos? A idéia obsessiva por vingança afasta a vontade da morte, afinal com o suicídio ela libertaria todos da sua indesejável existência. Para vingar-se e ganhar respeito ela pretende reatar com o segundo marido, um homem de posses, com quem ela teve um filho, Francis, que vive sob os cuidados do pai.  Tristan a visita algumas vezes para que ela veja o filho e talvez por pena.

 

Em tudo a sua volta Murielle vê sujeira, apenas ela é limpa e correta. Dessa forma ela se defende e se sente injustiçada, mas cai em contradição a todo o momento. Por fim, Murielle exige a sua vingança a Deus, ainda que duvide da existência dele.

 

A Mulher Desiludida

 

A terceira mulher é apresentada através de desabafos ao seu diário. Dona de casa, vinte e dois anos de casamento, mãe de duas filhas. Monique optou por não trabalhar fora para se dedicar a família. No início da vida conjugal, ela ajudava o marido, Maurice, no atendimento aos pacientes, mas quando ele parou de clinicar para desenvolver pesquisas, ela perdeu o interesse pelo trabalho dele, pois o que a agradava era cuidar das pessoas.

 

Depois das filhas saírem de casa, ela passou a sentir o marido (que supostamente passava noites trabalhando no laboratório) cada vez mais distante. Colette, a filha mais velha, seguiu os passos da mãe: casou-se e dedicava-se ao seu novo lar. A caçula, Lucienne, com quem sempre teve uma relação difícil, decidiu estudar nos Estados Unidos.

 

Numa segunda-feira, 27 de setembro, Maurice chega às três da madrugada e acaba por confessar que havia outra mulher em sua vida, era Noéllie (uma advogada que Monique julgava esnobe e fútil). Maurice passa a se encontrar com a amante com o consentimento da esposa que, aconselhada por uma amiga, acredita que com o passar do tempo a relação com Noéllie cairia na rotina e findaria. No entanto, a cada questionamento de Monique, novas confissões são feitas no decorrer de cinco meses, e ela descobre que Maurice se relaciona com outras mulheres há oito anos e que o caso com Noéllie não era tão recente como ela imaginava. Eles saíam há um ano e seis meses.

 

A cada nova descoberta, Monique busca explicações, criando suposições e hipóteses. Será que ela teria se descuidado com a aparência, ou não era tão inteligente?  Será que ele a culpava pelo casamento de Colette e a distância de Lucienne? Será que ela teria sido uma mãe possessiva e castradora? Será que o seu maior erro foi se distanciar do trabalho dele? Monique buscou a astrologia e até a grafologia para melhor tentar entender a situação que vivia, mas o que se revelava de forma dolorosa a cada dia era que o tempo havia passado, e Maurice e o seu casamento haviam mudado. Enquanto Monique tentava sustentar os laços de vinte e dois anos, Noéllie ganhava espaço na vida de Maurice. Ela desiste e cai em profunda depressão; vai ao psiquiatra e aceita um trabalho, mas nada altera a sua falta de perspectiva.

 

Além do casamento, Monique não tinha mais nada. Maurice decide sair de casa e viver só e, por insistência de todos, ela viaja e passa quinze dias em Nova Iorque. Ainda tinha esperanças de que Lucienne pudesse te dar as respostas que precisava (afinal ela não teria o mesmo cuidado de outras pessoas ao criticá-la), mas retorna ainda mais desolada. Monique percebe que vivera com o único intuito de fazer a felicidade do marido e das filhas, mas eles não eram felizes. Ela já não tinha mais certezas, tudo em que acreditava perdeu o sentido. De volta para casa, Monique está só. A vida não ia parar nem acabar pelo seu simples querer. Atrás da porta está o futuro e ela sente medo.

 

 

 

Quando a obra “A Mulher Desiludida” foi lançada Simone de Beauvoir tinha 60 anos. Quase vinte anos depois, em 14 de abril de 1986, ela faleceu vítima de câncer no pulmão. Enterrada ao lado de Sartre no Cemitério de Montparnasse, a sua morte foi sentida por mulheres em todo o mundo.

 

 

 

O Acabamento do Mundo

 

Janeiro de 2007, Ipirá/BA.

 

A lua está cheia novamente. Já faz um mês que Faísca pariu. Foram seis ao todo, mas dois morreram antes mesmo da lua minguante. Justamente os dois mais mirradinhos. Os maiores grudavam nos peitos de Faísca e sugavam com força todo o leite que podiam. Para os outros dois não sobrava sequer o alimento. Assim, foram definhando e morreram com poucos dias, vítimas do Darwinismo do mundo animal.

 

Tonho e Zefa também já perderam dois filhos. Morreram com menos de um ano de vida. Ambos nasceram sem muita saúde. Cabiam numa caixa de sapatos de tão pequenos. Mas isso não diz muito, afinal, todos os outros também nasceram assim e vingaram. O mais velho já tem dez anos, o do meio tem seis e o caçula fez três. Zefa passou noites e noites acordada velando o sono dos filhos, foi assim com todos eles. Sabia que um dia podiam não acordar, por isso rezava e pedia pela vida deles. Seus pedidos foram ouvidos três vezes, duas não. Às vezes, Tonho e Zefa pensam que talvez os dois tivessem se recusado a viver ali. Parecia mesmo que ao perceberem o quão sofridas seriam suas vidas, preferiram voltar para o lugar de onde vieram, seja lá onde for. Saíram do ventre da mãe para o ventre da terra. Num lugar onde tudo parece não ter fim - o horizonte, a seca, o tempo... -, só a vida tinha fim tão rápido. Zefa tentava se conformar: “Se Deus quer assim, ele sabe o que faz”. Tinha mesmo de pensar dessa forma. De toda a redondeza não havia um só que já não tivesse perdido ao menos um filho.

 

Os meninos brincavam com os filhotes enquanto Zefa varria o terreiro e Tonho, sentado no batente da porta, amolava o facão. Desde o dia em que Faísca pariu, eles não queriam saber de outra coisa. Zefa apreciava com gosto a diversão dos filhos, e observava com cuidado cada um deles: “Tonho, acho qui os menino num tão bem não”. “Qui invenção é essa muié?” Tonho perguntava sem desviar os olhos do que fazia. “Acho qui eles deve é de tá com verme”. “Verme qui nada. Os menino tão bem sim. Tão inté barrigudinho ói. Além do mais, feliz do bicho qui engole o outro, né verdade?” – Tonho colocava um ponto final na conversa.

 

A essa altura, a brincadeira já tinha virado arrelia. O caçula começou a chorar. “Zeca, vem aqui” chama Tonho. “Menino deixa de ser cabiçudo. Seus irmão também quer brincar com os bichinho. Deixe de pirraça”. Tonho era um homem seco como a própria terra que pisava, mas incapaz de levantar a mão para bater num filho. Bastava chamar a atenção uma vez e eles o respeitavam. Além do mais, sabiam que se continuassem Zefa se intrometeria e aí sim sobraria uns cascudos para cada um. Zefa era boa mãe, zelosa e preocupada, mas não era de fazer carinhos, simplesmente porque não os sabia fazer. Não tivera quem os fizesse nela. De vez em quando se aproximava meio sem jeito e passava a mão sobre a cabeça de um deles com certa rudeza. Eles entendiam a intenção do gesto e sorriam agradecidos.   

 

Tonho voltou a amolar o facão. “Zefa, me traz aí essa mandureba”. Quando cansava de tanto ralar a lâmina na pedra, parava e tomava um gole. Deixava os olhos se perderem no infinito: apreciava o céu, os galhos secos das árvores, a terra que mais parecia um imenso torrão. Mas sentia certa felicidade. “Zefa, assunta só, ói como o fôrro tá ramiado”. Zefa resmunga sem dar muita importância: “oh homi, quantas vez essas nuve já passaram por aqui? Elas tão sempre de passage”. Tonho, cheio de certeza, insiste: “mas a tatarena também tá dando fulô, é chuva na certa. Cê vai vê, um dia os lajêdo vão voltar a ficar coberto de água...” Zefa havia se retirado deixando Tonho a falar sozinho sobre todas aquelas coisas que ela já não acreditava.

 

Naquela noite, antes de deitar, Tonho deu uma espiada no céu – continuava ramiado. As nuvens encobriam a lua deixando a noite escura. Ele estava cheio de esperança que aquela chuva toda resolvesse cair ali sobre sua terra. Não via a hora de arar, plantar, colher, comer. Pegou a viola e tentou lembrar de uma canção, também uma espécie de prece para ele – a única que sabia – e que há muito não tocava. No meio da madrugada o caçula acordou assustado. As noites eram sempre tão tranqüilas, de vez em quando uma cigarra cantava. O menino nunca tinha visto coisa igual na vida. Pelas frestas das portas e janelas entrava um clarão, uma luz azulada que vinha rápido e iluminava o chão de terra batida. Em seguida, ouvia uns estrondos, uns estalos que ecoavam forte quebrando a calmaria do sertão. Das telhas, caíam, gostosos sobre seu rosto, uns pingos fininhos de água. E sentia um cheiro diferente que não fazia idéia de onde vinha: era a terra molhada. O menino abriu o berreiro. Tonho acordou também surpreso, mas sem o medo do filho. “Menino, se avexe não. Vem cá. Tá pensando qui é o acabamento do mundo é? Né não fio, é chuva, é chuva...”.

 

O menino olhava com espanto o terreiro encharcado. Pela janela via uma paisagem completamente nova. A chuva mudou a cor do sertão, a textura da terra, a força do vento. Com o mesmo olhar de criança que acaba de descobrir algo novo, Tonho apreciava a enxurrada que corria forte sobre a terra que já não agüentava mais chupar tanta água. Para o sertanejo, a chuva é sempre uma benção. Uma graça que maravilha os olhos e conforta a alma com a certeza de trabalho e fartura, e com a certeza, também, da existência de Deus.

 

Conto escrito nos tempos de faculdade, segundo semestre de jornalismo (2002).

 

 

O Segundo passo

 

 

 

Depois de tentar limpar as energias negativas e tomar um chá de otimismo, imprimi dez cópias do meu humilde resumo acadêmico e profissional, vulgo currículo, e percorri emissoras de TV da cidade. Parti para o bairro da Federação, onde elas se concentram.

 

A primeira que visitei foi a TVE. Da recepção, fui encaminhada para o setor de recursos humanos. O que ouvi não foi nada animador: “Olha, a demanda maior aqui é de estagiários. Precisamos de jornalistas, mas estamos à espera de uma decisão do Estado para fazer um concurso público. Você pode deixar o seu currículo, mas é pouco provável...”. Comecei mal, e terminei pior.

Se no IRDEB eu pude andar por alguns corredores até o RH, nas demais, eu sequer passei da recepção. “Currículo? Você pode deixar aqui mesmo que nós encaminhamos”, foi o que ouvi na TV Aratu. Na Band não foi diferente. Mas encaminham para onde? Saí com a sensação que o meu currículo seria conduzido diretamente para o picotador de papel. Eu espero, ao menos, que exista alguma consciência ambiental e o papel descartado seja reciclado. E não deve ser pouco papel, afinal a quantidade de currículos entregues diariamente não é pequena.

 

Isso foi exatamente o que me disseram na TV Itapoan. “Agora a emissora só recebe currículos através do site, por que recebíamos dezenas todo dia”. Enquanto a recepcionista procurava um papel para escrever o endereço do site, tentei contar o número de faculdades de jornalismo em Salvador. UFBA, Jorge Amado, FTC, FSBA, FIB, Faculdade da Cidade, 2 de Julho, UniBahia, FacDelta, Tomás de Aquino. Definitivamente, é muito jornalista para pouco jornalismo.

 

Ali ao lado, um grupo de mulheres e crianças esperava no portão de entrada da emissora. Todos queriam ter a chance de falar no Programa do “Valera”. Um garoto vibrava como se tivesse realizado um grande sonho: “Apareci no “Valera”, falei na televisão”. Por um instante, me veio à mente aquele programa, o Balanço Geral, que há pouco tempo recebeu o reforço do “Se Liga Bocão”, reunindo Raimundo Varela e Zé Eduardo. Enquanto um bate na mesa e mostra o cartão vermelho, outro manda “soltar o metal na bandidagem”, com o som da metralhadora ao fundo. Os pagodeiros dando entrevistas e dançando no estúdio. A exploração da pobreza e da ignorância. A incitação à violência. O populismo. Se Willian Bonner considera o telespectador médio do Jornal Nacional como o Homer Simpson, qual personagem resume o telespectador de Varela e Bocão?

 

Voltei para a casa exausta. Que maratona! Nas mãos, o papel com o endereço do site da emissora. A letra redondinha da recepcionista... Amassei e joguei no lixo. Ao menos, na minha casa, separamos o lixo seco para reciclagem. O currículo, este eu nunca enviei.

 

O Primeiro passo

 

 

Jornalista, recém-formada, pouca experiência e desempregada. O primeiro passo foi criar esse “diário virtual”. Os blogs surgiram como um consolo para os jornalistas sem público. Quantos jornalistas você conhece que, sem sucesso na busca por um emprego, acabou por criar um blog para publicar seus textos?

 

Dentre os milhares de blogs, em sua maioria lixo virtual, encontram-se as páginas dos jornalistas sem sucesso. Alguns de talento, mas injustiçados pelo mercado de trabalho. Outros nem tanto, mas, nem por isso, menos persistentes. Ávidos por leitores, eles divulgam os seus blogs entre os parentes e amigos mais próximos. Quem sabe a mamãe ou o melhor amigo acessem e deixem um recadinho para a felicidade do jornalista carente.

 

Com o tempo livre e com a ligeira sensação de que os ponteiros do relógio, cruelmente, andam ainda mais devagar, os jornalistas carentes passam horas diante do seu principal instrumento de trabalho, o computador. Eles escrevem compulsivamente, lêem páginas e mais páginas dos jornais online e, embora não admitam, acessam inutilidades.

 

Eu não sou diferente, a não ser pelo fato de assumir que visito sites inúteis. Um dia desses, sozinha em minha viagem pelo mundo virtual, encontrei no Orkut a comunidade “Jornalistas Desempregados”. Não me senti mais só. Conheci 175 iguais. Sabe aquela necessidade humana de se sentir pertencente a um grupo? E eu tenho certeza que esse grupo é bem maior, mas sabe como é jornalista, né? Jornalista não é categoria. Jornalista nem é trabalhador, é intelectual. E nunca está desempregado, é freelancer.

 

Na comunidade, entrei num fórum de discussão com o seguinte tema: Ser jornalista e sem a experiência. Eu me senti numa terapia de grupo. Como numa reunião dos alcoólicos anônimos, sabe?

 

O meu nome é Maria Ninguém. Estudei jornalismo por amor a profissão e nunca consegui trabalhar na área. “Não agüento mais mandar currículo e não receber resposta. Isso é revoltante”, diz alguém. Outro membro apresenta como sugestão o voluntariado. Alguns assumem que colaboram ou assinam um jornalzinho da comunidade sem receber nada pelo trabalho. Logo alguém rebate dizendo que “o que mata a profissão é justamente essa mentalidade” e defende que “se não há trabalho de jornalista, trabalhe-se em outra coisa, mas não trabalhem de graça”.

 

Antes que a discussão fosse monopolizada em torno do voluntariado (ou não), surge um jornalista adepto ao “polianismo” ou “síndrome da Poliana”. Quem não se lembra desse clássico infanto-juvenil? Poliana é uma menina de 11 anos, de um otimismo irritante, capaz de encontrar a felicidade nos piores momentos da sua vida. A receita é não desistir dos seus sonhos, não perder a esperança, diz uma jornalista lembrando as regras do “jogo do contente”.

 

A comunidade podia se chamar também “Jornalistas que amam demais”, como aquele grupo de uma novela global que reunia “Mulheres que amam demais”. Uma jornalista, tentando segurar as lágrimas, diz: “Cabe a nós lutar e não desistir. Estou sofrendo. Porém, amo o jornalismo mais que tudo”.

 

Como não podia deixar de acontecer, a comoção é interrompida por alguém que chama a atenção do outro por um erro de ortografia. “A base de um jornalista é seu texto, me desculpa a correção... construtivamente, por favor!”.

 

O último membro, ao se apresentar, joga um balde de água gelada. Ele já começa chutando a canela: “Pequena parcela de jornalistas se prostituem em subempregos, fazendo seu trabalho praticamente de graça e isso acaba com a profissão”. E prossegue dizendo, “Tô revoltado! Curso de merda!!! Joguei fora quatro a cinco anos da minha vida!!!”. E se despede dando um conselho: “Desistam e vão procurar um empreguinho em shopping”.

 

Ao fim, desisti da sessão terapêutica e resolvi tentar uma "sessão do descarrego".

 

APRESENTAÇÃO

"O Grito é uma pintura do norueguês Edvard Munch, datada

de 1893. A obra representa uma figura andrógina num

momento de profunda angústia e desespero existencial".

 

 

Chutando o pau da barraca

 

 

Por que crise nervosa? Para início de conversa eu gostaria de me apresentar. Eu sou jornalista recém-formada e a mais recente desempregada na Bahia. Isso já explica tudo.

 

Eu estudava direito e jornalismo, mas em 2001 decidi abandonar uma possível carreira jurídica para me dedicar ao curso de comunicação da Universidade Federal da Bahia. Fui chamada de louca. Os meus pais queriam que eu concluísse os dois cursos, enquanto os mais cruéis da família diziam que eu tinha vocação para a pobreza.

 

Desde os tempos de colégio eu sonhava em ser jornalista. Marlon, professor de história, também cursava jornalismo e me incentivava. “Você tem perfil de jornalista”, dizia ele.

 

Eu chutei o pau da barraca, tomei a minha decisão e, em 2006, finalmente concluí a graduação em comunicação social com habilitação em jornalismo. No início parecia que ia dar certo. Logo surgiu a oportunidade de trabalhar no interior do estado, fazendo assessoria de comunicação numa prefeitura. Eu não conhecia ninguém na cidade, na verdade nunca havia pisado os meus pés lá. Mas eu encarei. No início ficava sozinha num quarto de pensão, depois numa casa alugada com algumas colegas. Mas o trabalho na prefeitura... Como na maior parte das instituições do setor público do país, eles querem funcionários que fingem que trabalham. Sem estrutura e apoio, o funcionário não tem muita opção, faz o que pode e se acomoda, afinal de contas o salário será creditado no final do mês.

 

Quando a oposição conseguia espaço numa rádio da região para tecer críticas à gestão, o prefeito mandava chamar “a comunicação”. “A oposição bate e a gente não responde!”, ele bradava. Eu disse a ele certa vez: “A comunicação só é importante quando a oposição bate”. Ele não entendeu. Um ano se passou e nenhuma das minhas solicitações foi atendida.

 

Muita gente me dizia pra eu relaxar: “Faça o que pode e vá levando”, eu ouvia. Mas, mais uma vez, eu resolvi contrariar a maioria das opiniões. Decidi que estava muito cedo para eu me acomodar. Pela segunda vez, chutei o pau da barraca, pedi a minha exoneração e voltei pra casa.

 

Agora eu me pergunto: “E agora?”.    

 

 

 

 

 

 

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